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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A EDUCAÇÃO BRASILEIRA E O DIA EM QUE PORTUGAL DEIXOU DE TER ESCOLAS.

Tudo, absolutamente tudo, começa e termina na educação.

Sem educação de qualidade, não se pode ter saúde publica, segurança pública, trabalho digno e políticos honestos e bem intencionados.

No texto abaixo, pode-se entender o caos brasileiro.


03 DE SETEMBRO DE 1759

O DIA EM QUE PORTUGAL DEIXOU DE TER ESCOLAS

A Companhia de Jesus é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Íñigo López de Loyola, conhecido posteriormente como Inácio de Loyola (1491-1556).

Exerceu uma forte influência não só na Igreja, mas na sociedade em geral, incluindo o ensino, a política, a diplomacia e a cultura.

Em poucas décadas tornaram-se educadores de elites europeias e trans-europeias e missionários que levaram a doutrina cristã a remotas paragens. Porém, com o Marquês de Pombal criou-se o mito anti-jesuítico que se arrastou durante muito tempo. Atacados pelo forte obscurantismo e anti-progresso do país foram expulsos do território português.

Declaro os sobreditos Regulares na referida forma corrompidos; deploravelmente, alienados do seu Santo Instituto [...] ordenando que como tais sejam tidos, havidos e reputados: e os hei desde logo em efeito desta presente lei, Por desnaturalizados, proscritos e exterminados, mandando efetivamente que sejam expulsos de todos os Meus Reinos e Domínios, para neles mais não poderem entrar. E estabelecendo debaixo de pena de morte natural, e irremissível, e de confiscação de todos os bens para o Meu Fisco e Câmara Real, que nenhuma pessoa de qualquer estado e condição que seja, dê nos mesmos Reinos e Domínios, entrada aos sobreditos Regulares, ou qualquer deles [...] (Silva, 1830, p. 713-716).

Com essas palavras, em 1759, o rei de Portugal, d. José I, inaugurava na Europa um processo que culminou, mais tarde, na extinção da Companhia de Jesus pelo Papa Clemente XIV, em 1773.

Alvará de 3 de setembro de 1759, assinado pelo Rei D. José I e pelo Conde de Oeiras,
futuro Marquês de Pombal, mandando «exterminar,
proscrever e mandar expulsar dos seus Reinos e Domínios os Religiosos
da Companhia denominada de Jesus.

Portugal e sua principal colônia, o Brasil, perdiam, assim, educação de qualidade, de um dia para o outro. Educação com grande viés religioso é verdade, mas também de excelência em vários aspectos.

As reformas do Marquês de Pombal também atingiram a colônia brasileira, ao visar a reformulação dos serviços públicos por meio, principalmente, do combate à sonegação de impostos. Sua preocupação orientava-se no sentido de proporcionar uma unidade, um conjunto à colônia brasileira. Foi durante o seu governo que a cidade do Rio de Janeiro teve um extraordinário desenvolvimento, com destaque para seu porto e o aumento da população.

Verifica-se, portanto, uma nova ordem social, um novo modelo de homem, uma nova sociedade pautada nos valores do sistema de produção pré-capitalista.

Frente a esse contexto, pode-se afirmar que Pombal, ao expulsar os jesuítas e oficialmente assumir a responsabilidade pela instrução pública, não pretendia apenas reformar o sistema e os métodos educacionais, mas colocá-los a serviço dos interesses político do Estado.

Segundo Haidar, buscou-se:

[...] criar a escola útil aos fins do estado, e nesse sentido, ao invés de preconizarem uma política de difusão intensa e extensa do trabalho escolar, pretenderam os homens de Pombal organizar a escola que, antes de servir aos interesses da fé, servisse aos imperativos da Coroa. (1973, p. 38).

Em outras palavras, o Marques de Pombal queria dizer o seguinte: mais importante do que educação de qualidade é o trabalho em prol do desenvolvimento financeiro do país.

Importa lembrar que, apesar das propostas formais, as reformas pombalinas nunca conseguiram ser implantadas, o que provocou um longo período (1759 a 1808) de quase desorganização e decadência da Educação na colônia. Desse modo,

[...] a expulsão dos jesuítas em 1759 e a transplantação da corte portuguesa para o Brasil em 1808, abriu-se um parêntese de quase meio século, um largo hiatus que se caracteriza pela desorganização e decadência do ensino colonial. Nenhuma organização institucional veio, de fato, substituir a poderosa homogeneidade do sistema jesuítico, edificado em todo o litoral latifundiário, com ramificações pelas matas e pelo planalto, e cujos colégios e seminários forma, na Colônia, os grandes focos de irradiação da cultura. (Azevedo, 1976, p. 61).

Todos os males da educação, na metrópole e na colônia, foram atribuídos à Companhia de Jesus, durante a administração do Ministro Marquês de Pombal.

Marquês de Pombal

O novo está inspirado nos ideais iluministas e é dentro desse contexto que Pombal, na sua condição de ministro, buscou empreender uma profunda reforma educacional, ao menos formalmente. Nos propósitos transformadores, estavam previstas algumas mudanças. A metodologia eclesiástica dos jesuítas foi substituída pelo pensamento pedagógico da escola pública e laica; criação de cargos como de diretor de estudos, visando a orientação e fiscalização do ensino; introdução de aulas régias, isto é, aulas isoladas, visando substituir o curso de humanidades criado pelos jesuítas. Todas essas propostas foram frutos das condições sociais da época, a partir das quais, Pombal pretendia oferecer às escolas portuguesas condições de acompanhar as transformações de seu tempo. Nesse sentido, as novas propostas educacionais dele refletiam e expressavam o ideário do movimento iluminista.

No Brasil, entretanto, as consequências do desmantelamento da organização educacional jesuítica e a não-implantação de um novo projeto educacional foram graves, pois, somente em 1776, dezessete anos após a expulsão dos jesuítas, é que se instituíram escolas com cursos graduados e sistematizados.

A reforma de ensino pombalina pode ser avaliada como sendo bastante desastrosa para a Educação brasileira e, também, em certa medida para a Educação em Portugal, pois destruiu uma organização educacional já consolidada e com resultados, ainda que discutíveis e contestáveis, e não implementou uma reforma que garantisse um novo sistema educacional. Portanto, a crítica que se pode formular nesse sentido, e que vale para nossos dias, refere-se à destruição de uma proposta educacional em favor de outra, sem que esta tivesse condições de realizar a sua consolidação.

Quando a Companhia de Jesus foi restaurada em Portugal, em meados do século XIX, os jesuítas intentaram reconquistar a influência que tinham tido nos séculos anteriores. Neste sentido, entre 1858 e 1910, os religiosos da Companhia de Jesus fundaram e mantiveram em funcionamento o Colégio de Campolide (1858, Lisboa), o Colégio de S. Fiel (1863, Louriçal do Campo) e casas de formação religiosa como o Noviciado do Barro (1860, Torres Vedras) e a Casa de Setúbal (1878, Setúbal). E fundaram uma revista científica. Mas talvez tenha sido tarde demais, o estrago já estava feito.


Ouça no áudio abaixo, um resumo do trágica história da educação portuguesa e, por conseguinte, brasileira. Entenda o porque é tão difícil investir-se na educação no Brasil. A educação brasileira é precária porque está intrínseca em suas entranhas desde a colonização portuguesa. 


Áudio: João Miguel Tavares, Rui Ramos, Henrique Leitão
Programa "E o Resto é História" - Observador

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A VIDA DO OUTRO


É necessário aprender a respeitar as diferenças. Perceber que cada um tem que CUIDAR DA SUA VIDA!

Tenha atenção a SUA VIDA em primeiro lugar, procure corrigir suas falhas. E tenha certeza, muitas delas você ainda nem percebe.

Nossos inimigos naturais estão em nossa mente: Egoísmo, ganância e ignorância.

É importante estar em constante atenção a estas imperfeições, pois são elas que bloqueiam a nossa evolução.

Perceba que ajudar é muito bom, mas é necessário estarmos conscientes do que estamos fazendo.

Muitas dificuldades são necessárias para nossa evolução e dos outros também.

Um músculo só fica forte quando pratica a musculação. Se te carregarem no colo sempre, quando te colocarem no chão suas pernas estarão fracas. Não conseguirás andar.

viver é uma evolução constante. Antes de agir sinta, pense. Um sábio não age sem pensar!

Uma palavra dita na hora certa, pode mudar tudo. E o contrário também é verdadeiro! Controle sua língua. APRENDA A SILENCIAR NO MOMENTO CERTO!

Observe-se! Cuide mais de você! Seu corpo... Sua mente... Seu espírito... Suas emoções.

EQUILÍBRIO!

Um dia tudo isso será passado! Esse mundo é apenas um estágio. Daqui só levaremos o que o que nos tornamos, não o que pensamos ter.

A paz começa contigo!



domingo, 27 de dezembro de 2020

VOCE VAI MESMO TOMAR A VACINA CONTRA O COVID-19? TEM CERTEZA?

Leia as informações abaixo antes de decidir se vai ou não tomar a vacina contra o SARS-CoV-2:

  • Distúrbios cardíacos (aparecimento simultâneo de eventos coronarianos agudos e reações alérgicas ou anafilactóides. Engloba conceitos como infarto alérgico e angina alérgica);
  • Distúrbios do sistema imunológico;
  • Pode causar choque anafilático, reações anafiláticas/anafilactóides que podem se tornar graves com risco à vida e, em alguns casos, serem fatais;
  • Estas reações podem desenvolver-se imediatamente após a administração ou horas mais tarde; contudo, a tendência normal é que estes eventos ocorram na primeira hora após a administração;
  • Reações anafiláticas/anafilactóides leves manifestam-se na forma de sintomas na pele ou nas mucosas (tais como: coceira, ardor, vermelhidão, urticária, inchaço), falta de ar e, menos frequentemente, doenças/queixas gastrintestinais;
  • Reações leves que podem progredir para formas graves com coceira generalizada, angioedema grave (inchaço em região subcutânea ou em mucosas, geralmente de origem alérgica até mesmo envolvendo a laringe), broncoespasmo grave, arritmias cardíacas (descompasso dos batimentos do coração), queda da pressão sanguínea (algumas vezes precedida por aumento da pressão sanguínea) e choque circulatório (colapso circulatório em que existe um fluxo sanguíneo inadequado para os tecidos e células do corpo;
  • Anemia aplástica (doença onde a medula óssea produz em quantidade insuficiente os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas), agranulocitose (diminuição do número de granulócitos – tipos de glóbulos brancos - no sangue, em consequência de um distúrbio na medula óssea) e pancitopenia (redução de glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas), incluindo casos fatais, leucopenia (redução dos glóbulos brancos) e trombocitopenia (diminuição no número de plaquetas).


Estas reações podem ocorrer mesmo após a Novalgina ter sido utilizada previamente em muitas ocasiões, sem complicações.

Sim, eu não estava falando da vacina contra o Corona Vírus, mas de um medicamento que você, eu tenho certeza, em algum momento da sua vida – ou de uma pessoa próxima a si, fez uso.

Todo medicamento tem efeitos colaterais, porém salvam vidas e/ou tornam a dor menos aguda ou nula.

Não se deixe levar por informações – ou a falta delas, desencontradas.

Como em tudo o que é novo, há demasiadas variáveis para termos agora um veredicto seguro. O tempo dirá. De uma coisa eu tenho certeza: é preferível arriscar nas incertezas da vacina do que nas de uma doença que já matou ou incapacitou milhões.



quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

CERCA DE 540 ANIMAIS PERDERAM A VIDA

 



Imagens foram divulgadas dos cadáveres dos animais alinhados no chão, como troféus de caça.

O caso gera ainda mais indignação porque está em avaliação a possibilidade de instalar um enorme parque de painéis fotovoltaicos numa área de 775 hectares onde ocorreu o massacre, e há quem veja nestas ações uma tentativa de “limpar” a área para este fim, pois os animais “atrapalhavam” o projeto.

Moro na Europa e, por aqui, vejo a todo momento, nos noticiários, matérias sobre o desmatamento, queimadas e a consequente morte de animais por esse e outros motivos, na Amazônia. Inclusive, sempre colocando toda a culpa e responsabilidade no atual governo do Brasil.

Porém, não vi em nenhuma mídia europeia alguma notícia relevante a respeito desse massacre. Nada, nem um comentário sequer. A não ser, claro, na mídia de Portugal, que foi onde aconteceu essa "matança".

Não vi nenhuma manifestação daquele pessoal defensor do meio ambiente ou de governantes relevantes em âmbito mundial. Nada.

A hipocrisia prevalece.


MATÉRIA COMPLETA AQUI

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

AL-MU’TAMID: POETA REI DO AL-ANDALUZ

 Al-Mu’tamid Ibn Abbad é considerado o mais brilhante poeta andaluz do Séc. XI.

Era, no século XI, senhor de várias cidades do sul de Portugal e Espanha. Foi também um dos maiores poetas do seu tempo e, ainda hoje as suas palavras são recordadas.

Beja, Silves, Sevilha eram cidades que integravam um dos mais brilhantes reinos muçulmanos da Península Ibérica e que tinha como senhor Al-Mu’tamid Ibn Abbad, um príncipe e um poeta que ainda hoje é recordado na literatura árabe.

Nascido em Beja em 1040, Al-Mu’tamid foi governador de Silves (ambas as cidades hoje situadas em território português.), cujo castelo tomou em nome do pai, rei da Taifa de Sevilha, trono que herdou e perdeu posteriormente na intensa guerra que opunha os muçulmanos a sul e os cristãos do norte.

Entre 1069 e 1090 foi Rei da Taifa de Sevilha, sucedendo a Al-Mu’tadid, seu pai. Após ter sido destronado em 1091 pela dinastia Almorávida, que passou a controlar todo o Sul da Península Ibérica, foi levado para Aghmat, 18 km a Sul de Marraquexe, Marrocos, onde passou os últimos anos da sua vida, preso e desterrado, e onde acabou por falecer na miséria, em 1095.




Castelo de Silves

Castelo de Silves

Castelo de Silves

Alcáceres Reais de Sevilha

Alcáceres Reais de Sevilha

Alcáceres Reais de Sevilha

Abaixo, a Torre de la Giralda. É o antigo minarete da Mesquita da Alfama, datado do Século 12, convertido em campanário da Catedral de Sevilha.

Torre de la Giralda, Sevilha

Torre de la Giralda, Sevilha


Al-Mu’tamid (1040-1095), fragmentos de seus poemas...

Eu só quero que me fales
de cantigas e de vinho
deixa lá, tu não te rales
Deus perdoa o descaminho!

Deixa esta gente vã,
de promessas e intrigas.
ela já não conta nada
pois o meu maior afã
é beber minha golada
nesta tarde tão louçã
ao som de belas cantigas.

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A noite lavava as sombras
das suas pálpebras com a aurora.
ligeira corria a brisa.
e bebemos! um vinho velho cor de rubi,
denso de aroma e de corpo suave.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

LAGOS E A ESCRAVATURA NA HISTÓRIA DOS DESCOBRIMENTOS

Em Lagos, o tráfico negreiro quatrocentista tornou-se palpável.

Lagos, cidade desenhada por Alexandre Massai [c. 1621]. Códice Vieira da Silva, fls. 40 -41.
Cota 1402 -16. Arquivo do Museu de Lisboa. Cota 1402 -16.


Em 2009 foram encontrados em Lagos, no Algarve, os esqueletos de 155 homens, mulheres e crianças, revelando o mais antigo espaço já identificado no mundo e o único na Europa com aquelas características. Ou seja, uma lixeira onde foram depositados há seis séculos os corpos de escravos africanos. Hoje, o terreno está ocupado por um estacionamento e um minigolfe e é alvo de divergências entre a autarquia e historiadores. E as ossadas foram enviadas para Coimbra para serem estudadas.

Depois de trabalhos de avaliação do impacte arqueológico, foi descoberto um importante conjunto de ossadas humanas, muitas das quais colocadas em posição anormal. Sabia-se que naquele local teria existido no final do século XV uma leprosaria (o próprio termo gafaria ainda persiste na toponímia), o que talvez explicasse os esqueletos, mas, na verdade, a disposição de alguns deles, a descoberta de mulheres com filhos nos braços e os traços negroides de mais de centena e meia de indivíduos lançaram para o ar várias dúvidas. Estavam ali mais do que restos mortais de doentes com lepra, embora a descoberta da gafaria, por si só, fosse inédita no contexto arqueológico português.

Cronologia e as rotas dos principais movimentos de tráfico negreiro. Mapa: NGM-P.
Fonte: “An Atlas of the Transatlantic Slave Trade”, de David Eltis 
e David Richardson. reproduzido com autorização de Yale University Press.

"Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor”, refere o poema “Mar Português”, escrito em 1934 por Fernando Pessoa. Não deixa de ser curiosa esta alusão, exatamente 500 anos após Gil Eanes ter dobrado o também designado cabo Medo. Corria o ano de 1434 quando essa entrada de terra mar adentro, no atual Saara Ocidental, foi por fim vencida e, com esse feito, se inaugurou um novo marco na expansão marítima nacional.

Para trás, já tinham ficado as descobertas das Canárias em 1341, Porto Santo e Madeira respectivamente em 1418 e 1419 e os Açores em 1427, sob o impulso da conquista de Ceuta de 1415, que corresponde à data “oficial” do arranque da Expansão. 

Apesar das regalias oferecidas a quem pretendesse colonizar alguns destes territórios encontrados vagos de gente aquando das suas descobertas, cedo se percebeu que os incentivos não sensibilizaram quem tivesse vontade de abandonar a pátria continental e partir um pouco à aventura para terras desconhecidas. Mas, mais do que isso, os primeiros colonos depressa se aperceberam das dificuldades em desbravar aquela terra. Tornava-se premente a necessidade de mão-de-obra.

Depois de as caravelas esquadrinharem à bolina o golfo da Guiné e costa da Mina e dobrarem em 1441 o cabo Branco, avistaram-se em 1456, pela primeira vez, as ilhas cabo-verdianas. Na costa ocidental africana, foram iniciados contatos com os habitantes locais, que se poderiam tornar na tal “força de braços” que tanto urgia para  aproveitar os territórios já encontrados. 

Não surpreende, então, que nos inícios da década de 1440 diversos navios lançassem âncora em algumas cidades portuárias de Portugal com o intuito de desembarcar indivíduos de raça negra provenientes da costa ocidental africana, com a finalidade de serem vendidos como escravos após licitação em praça pública. É aqui que o “mistério” de Lagos entronca.

A "magnífica" cena desse leilão ocorre na manhã de 8 de agosto de 1444, na vila algarvia de Lagos, quando os habitantes acordaram com a notícia de que durante a madrugada tinham chegado da costa africana, onde hoje é a Mauritânia e o Senegal, meia dúzia de caravelas com 235 cativos negros e brancos, porque também havia berberes. Foram leiloados à frente do infante D. Henrique, que foi o patrono do tráfico de escravos no Atlântico.

Embora se soubesse que havia comercialização de escravos, escasseava informação no registo arqueológico – existiam só alguns documentos, um dos quais escrito por Gomes Eanes de Zurara.

No capítulo XXIV da sua “Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné” (1451), este cronista escreve sobre o dia 8 de Agosto de 1444: “Chegaram as caravelas a Lagos (…) Pelo qual me parece que será bem que de manhã os mandeis tirar das caravelas, e levar àquele campo que está além da porta da vila, e farão deles cinco partes, segundo o costume (…) O Infante disse que lhe prazia; e no outro dia muito cedo mandou Lançarote, aos mestres das caravelas, que os tirassem fora e que os levassem àquele campo, onde fizessem suas repartições (…)”

Voltamos a olhar para o Vale da Gafaria. Aquele campo para lá da porta da vila a que se refere o cronista ajusta-se ao local da construção do parque de estacionamento, fora das muralhas citadinas. Lagos era então a base das navegações, sendo legítimo que, ao atracarem no seu porto, as caravelas descarregassem os escravos. A substanciá-lo, volta a estar a crónica de Zurara, que refere o sofrimento dos cativos. “Uns tinham as caras baixas e os rostos lavados com lágrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos céus (…) outros feriam seu rosto com suas palmas, lançando--se estendidos em meio do chão”, escreveu. cena seguinte deste quebra-cabeças passa-se na privacidade de um laboratório. Mais de um ano depois de terminarem as escavações de emergência, a equipa da Dryas prossegue a investigação associada aos elementos recolhidos no Vale da Gafaria. Apesar dos indícios que suportam a hipótese de que se trata de um local de sepultamentos, falta a prova dos nove, ou melhor, a “prova dos quatrocentos”: será que a datação por radio-carbono dos vestígios osteológicos comprova que estes indivíduos terão vivido no século XV?

Antigo porto de Lagos e Aonde se presume tenha sido o
primeiro Mercado de Escravos da Europa quatrocentista.

Apoiados pelo Centro de Investigação em Antropologia e Saúde, os arqueólogos retiraram fragmentos de costela de um dos primeiros indivíduos inumados no contexto arqueológico – o esqueleto conhecido por “indivíduo 169” – e enviaram-nos para datação. No contexto da arqueologia, as disputas sobre datação costumam ter um árbitro inatacável. A datação por radiocarbono é como o algodão: não engana.

Após algumas semanas de espera, o resultado comprovou as expectativas. O indivíduo em causa terá morrido entre os anos 1420 e 1480 d.C. – os primeiros momentos da história portuguesa (e de Lagos) associados ao tráfico de escravos de África para a Europa. “Parece que temos mesmo algumas das primeiras vítimas deste comércio inaugurado no tempo do infante Dom  Henrique”, sintetiza Maria João Neves, arqueóloga da Dryas.

Não subsistem dúvidas, portanto, de que os esqueletos encontrados em Lagos são referentes a escravos – excetuando os da gafaria, evidentemente. A juntar a estes elementos, foram descobertos ainda utensílios tipicamente africanos associados a duas sepulturas. A configuração craniana não caucasoide valida igualmente esta dedução. Mas havia mais um elemento desagradável à espera dos arqueólogos: muitos dos esqueletos apresentavam-se com as mãos juntas como se ainda estivessem amarrados segundo técnicas de imobilização características da época. “Há um desrespeito claro pelas regras de enterramento canónico, o que indicia uma desvalorização dos indivíduos falecidos”, diz Miguel Almeida, o arqueólogo que coordenou os trabalhos. O agrilhoamento foi posto de parte, uma vez que não se encontraram grilhetas ou outros vestígios arqueológicos. Teriam sido, ao invés, manietados com cordas ou outros materiais perecíveis.

Também na mesma linha de importância, realce-se o local onde estes foram encontrados – além da casa da leprosaria, aquele terreno fora das muralhas serviu até ao século XVII como lixeira. Maria João Neves fundamenta a ideia: “Juntamente com os escravos, foram encontrados inúmeros desperdícios e vestígios, e não se deve esquecer que, à época, os escravos também eram encarados como ‘lixo’”. No entanto, ressalve-se que existem dois tipos de enterramentos: “Alguns foram simplesmente atirados para o aterro, mas outros denotam preocupação de enterro, com alguma dignidade, digamos assim, talvez porque fossem escravos de segunda ou terceira geração, já nascidos em Lagos, talvez por terem morrido já depois de terem sido comprados ou até por diferenças de crenças entre quem os sepultou. No fundo, eram marginais à sociedade de então, daí terem sido depositados na lixeira.”

Não se pense, contudo, que o comércio escravagista se circunscrevia a Lagos ou ao Algarve. Com efeito, as caravelas podiam parar em Lagos, mas seguiam a sua rota, na maior parte dos casos na direção de Lisboa. Aqui, obviamente, eram também licitados e podiam seguir para diversos destinos – a capital, outros pontos de Portugal e, inclusive, outras paragens europeias e até para as Américas. Basta lembrar que na toponímia de Lisboa, Elvas ou Rio de Janeiro, há travessas do Poço dos Negros e a tradição oral de Lagos ainda recorda um Mercado dos Escravos. O que realmente distingue o caso de Lagos em relação aos restantes em Portugal é que nunca, como ali, foram encontrados tantos vestígios de comercialização de escravos deste período.

O trabalho não acabou com a recolha dos 155 indivíduos – dos quais 99 adultos – entre homens, mulheres e crianças. Apesar de as escavações terem sido dadas como concluídas há sete anos, os dados ainda estão a ser estudados e analisados pela equipa da Dryas. Maria João Neves assegura que “ainda só estamos no início. É um trabalho minucioso, paciente, mas feito com muita paixão. E porque se trata realmente de uma situação extraordinária em termos mundiais, temos imensa força de vontade de que, um dia, se conte a verdadeira história deste caso de Lagos”.   

Mesmo com toda a experiência arqueológica, uma escavação que envolva esqueletos humanos é sempre especial para os investigadores e para os transeuntes. Muitos dos trabalhadores que construíram o parque de estacionamento eram portugueses, mas havia igualmente brasileiros e africanos.

Crânio com evidentes modificações dentárias, uma prática tradicional na costa ocidental africana.

“Depois de saberem a história, os brasileiros comoviam-se por pena, como que imaginando o que alguns deles poderiam ter penado se tivessem ido para as terras de Vera Cruz e que poderiam por lá ter disseminado o seu sangue”, conta Maria João Neves. “Da parte dos africanos, senti respeito, como se estivessem a lidar diretamente com os seus ascendentes. Uma imagem que me fica na memória é vê-los a observarem silenciosamente os esqueletos que recolhíamos…”

Por ora, esta é uma história incompleta, pois a investigação vai continuar. Há uma questão que ainda atormenta Miguel Almeida e Maria João Neves. De onde vinham estes escravos? Com as tecnologias modernas, cruzando informação morfológica, registos etnográficos sobre práticas de modificação dentária (abundantes nos esqueletos de Lagos) e informação documental sobre as rotas de escravos mais comuns nos séculos XV e XVI, talvez seja possível determinar a origem geográfica daqueles seres humanos que, involuntariamente, escreveram uma página dos Descobrimentos.


Fonte: National Geographic 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A CHINA E OS NOVOS TURGIMÕES

Entre os séculos XVI e XVIII Portugal era dono de, literalmente, metade do mundo conhecido. Em suas navegações, os portugueses iam descobrindo a cada nova viagem, “novos mundos”.  Essa época foi chamada de Expansão, pois expandia o reino de Portugal para terras de além mar.


Na época da Expansão e Descobrimentos Portugueses, surgiram os turgimões. Os criminosos que cometiam crimes “leves”, que poderiam ser variados, tais como crimes contra a religião católica, adultério, pequenos furtos, crime de ofensa verbal contra o rei e os Direitos Régios e vários outros pequenos delitos, poderiam ser - entre outras penas alternativas, degredados.

Porém, eram degredados para lugares ainda não desbravados ou colonizados.

Esses “criminosos” eram chamados de turgimões. Eles eram deixados em terras desconhecidas para ali permanecerem por um, dois ou três anos – ou pela vida toda, caso fosse esquecido ou não encontrado, para que aprendessem a língua e costumes locais.



Após serem resgatados pelos navios português, anos depois de terem sido deixado ali, os que sobreviviam já dominavam a língua nativa e eram levados a Portugal para prestarem contas ao rei, ou seja, para relatar o que viu e viveu naquelas longínquas terras. A partir daí, o turgimão era usado como interprete para as inevitáveis invasões portuguesas.

O termo refere não só o intérprete, com competências comunicativas através do uso de duas ou mais línguas, mas também aquele que fornece aos portugueses informações sobre a geografia, gentes, costumes e riquezas das zonas ‘descobertas’. Em numerosos casos, o processo de descoberta não poderá dar-se por concluído sem essas informações.

Nos dias atuais estamos assistindo – sem que muitos percebam, a um novo tipo de turgimão: o turgimão chinês.

Você já reparou que na sua cidade existe pelo menos uma loja pertencente a um chinês?

A invisível mão do Estado

A china é um país comunista e embora à primeira vista a economia chinesa pareça completamente capitalista, "se você remover a camada mais superficial, poderá ver a mão pesada do Partido". A "mão invisível" do Partido Comunista da China está em todos os aspectos da economia.

As camadas inferiores trabalham de forma mais próxima ao capitalismo, mas o controle é definitivamente mais visível no topo da pirâmide econômica: o Estado determina, por exemplo, o preço do yuan e quem pode comprar a moeda chinesa.

É o Estado que controla quase todas as maiores empresas do país, que administram os recursos naturais. Ele também é oficialmente o proprietário de toda a terra, embora, na prática, as pessoas possam ter propriedades privadas.

E o Estado também controla o sistema bancário, decidindo quem pode tomar empréstimos. Até as empresas privadas chinesas devem passar por inspeções estatais e ter "comitês partidários" que possam influenciar a tomada de decisões.

Em outras palavras, na China o cidadão é totalmente controlado pelo Estado e em tudo tem a invisível, porém impiedosa, mão do Estado.

Então, pensemos...

Se o cidadão é controlado pelo Estado, como pode um simples indivíduo sair da China com 300, 400 ou 500 mil dólares - no mínimo, migrar para um país desconhecido por ele, sem dominar o idioma, sem saber a legislação local, com costumes totalmente diferentes dos seus, sem documentos legais sem que o Estado Chinês tenha permitido ou mesmo previamente arranjados?

Em minha opinião, quando esse cidadão chinês desembarca no país de destino, ele, provavelmente, já tem preparado e a sua espera toda essa burocracia, por meio dos Consulados locais.

Se para os nacionais abrir uma empresa, alugar um imóvel para comércio e para residência, já é moroso e custoso, imagine para um estrangeiro! Lembrando que esse estrangeiro em questão sequer fala o idioma local!

Lembrando que a China, hoje, possui cerca de 1 bilhão e 400 milhões de habitantes, enviar um, dez ou cem mil chineses para outros países e deixa-los lá, como “novos turgimões”, não significa nada em números de seus cidadãos.

A sorrateira invasão chinesa

Você sabia que entre os 17 principais portos do mundo, 8 são da China, além disso, o porto de Shanghai é o maior do mundo desde 2010. E boa parte, tanto das principais exportações, quanto das importações do mundo, sai ou chega na China através de seus portos espalhados pelo mundo.

Isto quer dizer que aquele moderno smartphone que você comprou, além de ter sido fabricado por chineses, tem que passar por algum porto chinês para chegar até você. Assim como o ferro e outras commodities que, depois de ter sido beneficiado na China, também passou por portos chineses para chegar ao seu país.

Imagine isso em termos globais. Estamos, de fato, nas mãos dos chineses.

Devagar e despretensiosamente, a China vai se apoderando do mundo. Atacando aonde dói mais no ocidente capitalista: a economia. A China – na verdade os orientais, são famosos por sua paciência e disciplina. Então, é só uma questão de tempo.

Investigue, leia, informe-se sobre em todas as companhias (privadas ou estatais) que a China comprou nos últimos anos, no seu país. Você, um parente seu ou alguém que conhece já trabalha para os chineses. Isso quer dizer: mais dinheiro e mais poder para a China.

A China, na maioria das vezes, se aproveita da fragilidade de países ditos do “terceiro mundo”, em desenvolvimento, oferecendo dinheiro em troca da sua subordinação e dependência.

Tenhamos como exemplo a África

A China investe – há anos, milhares de bilhões de dólares na África. Escravizando seu povo com seu poder econômico. Um novo tipo de escravidão, tão cruel como no passado.

Os governos, ambiciosos e cegos pelo “vil metal” alheio, entregam-se a tentação do imediatismo. Mas, como eu disse anteriormente e todos sabemos: os orientais são assim: pacientes e disciplinados. Sabem esperar.

Tanto a China como os Estados africanos compartilham da humilhação de terem sido submetidos à dominação europeia e terem lutado contra o colonialismo. Talvez dessa investida econômica da China, faça parte a sua vingança. Afinal, como se diz: “a vingança é um prato que se come frio”.

A atividade econômica da China na África também pode ser constatada nos mais de 720 projetos estratégicos que o país leva adiante em 49 países africanos. A presença de capitais chineses na África pode ser facilmente notada por sua concentração em setores da economia como a extração de matérias-primas, a construção civil e as telecomunicações.



Em várias ocasiões, o capital chinês se associa a empresas locais ou estrangeiras. O petróleo constitui a menina dos olhos e um capítulo à parte. Não é por acaso que os maiores investimentos chineses estão localizados nos três maiores produtores: Sudão, Angola e Nigéria.

Lembre-se de que o petróleo não é empregado apenas como combustível, além disso, ele é uma importante matéria-prima utilizada na fabricação de plásticos, tintas, borrachas sintéticas e alguns outros produtos.

Os chineses não só estão repetindo o modelo neocolonial, mas também estão dotando-o de características ainda mais negativas e agressivas às riquezas naturais e às culturas locais, ao acrescentar a corrupção como um elemento habitual nas negociações e ao não colocar em prática um trade off* entre ajuda e democracia. Também se observa o perigo de um «imperialismo chinês» em que o crescimento e a imersão da China na África possa estar contribuindo para a desindustrialização e o subdesenvolvimento.

Em alguns países africanos houve protestos contra a destruição das nascentes indústrias locais, que não puderam competir com as importações provenientes da China. Os imigrantes chineses ocupam os postos de trabalho dos africanos, em detrimento da mão-de-obra local. Também sustentam que, quando se contrata pessoal africano, as medidas de segurança são baixas e os cuidados com o meio ambiente são nulos. Do mesmo modo, argumentam que os chineses levam adiante sua investida econômica somente nos países que possuem os recursos de que necessitam, e abandonam os demais.

A África é só um exemplo que escolhi, entre outros continentes e países, para fazer-vos pensar. E talvez, você agora entenda um pouco melhor o termo turgimão.



Termino este texto com uma questão que somente o tempo poderá nos responder: existirá limites para as investidas financeiras e o crescimento chinês?

 

*Trade off é um conceito muito importante da economia, ele consiste na escolha de uma opção em detrimento de outra.

 

*Fonte: vozes da minha cabeça.


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MÁSCARAS, ÁLCOOL EM GEL, DISTANCIAMENTO... A GENTE SE ACOSTUMA.

 


Eu sei, mas não devia.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

Texto publicado pela autora Marina Colasanti (1937)
no Jornal do Brasil, em 1972 


A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.


A gente se acostuma a acordar de manhã̃ sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.


A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.


A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.


A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.


A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está́ contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está́ duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.


A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesmo.



A gente se acostuma, mas não devia.

sábado, 28 de novembro de 2020

SOB NOSSA PELE, SOMOS TODOS IGUAIS

RACISMO: COMO A CIÊNCIA DESMANTELOU A TEORIA DE QUE

EXISTEM DIFERENTES RAÇAS HUMANAS


Lorenza Coppola Bove.


Desde o seu surgimento no século 18, a antropologia física concentrou-se no estudo dos restos mortais de esqueletos humanos. Seu objetivo era observar os fenômenos evolutivos e a variabilidade humana.

À medida que novos territórios e populações foram sendo descobertos, era necessário, de acordo com os naturalistas europeus, classificar os seres humanos de acordo com suas características.

No reino animal, falar sobre raças geográficas consiste em definir grupos de indivíduos que se diferenciem por características adaptadas ao tipo de ambiente. No caso do ser humano, o conceito tinha uma conotação muito diferente.

De fato, a diversidade humana não era percebida como uma seleção do ambiente (como acontece com a cor da pele e a forma dos olhos).

Em vez disso, foi interpretada como se refletisse as características culturais das muitas populações do planeta.

Por exemplo, os traços europeus eram considerados "superiores, equilibrados, bonitos" e eram o reflexo externo da "inteligência e educação" que caracterizavam todos os europeus.

Eles se consideravam a raça "suprema".

Já os traços africanos eram considerados "primitivos e pouco atraentes", símbolo de uma população "ignorante e incivilizada", segundo naturalistas e antropólogos do século 18.


A criação de uma hierarquia


O contexto histórico favoreceu uma investigação dedicada à classificação dos tipos humanos.

O colonialismo e a escravidão foram os motores que levaram os europeus a buscar apoio científico para justificar suas ações contra os povos indígenas.

Uma das primeiras ferramentas usadas para discriminar as diferentes "raças humanas" foi a craniologia, o estudo das características métricas e morfológicas do crânio humano.

Para isso, foram medidos os crânios dos principais grupos populacionais conhecidos.

A cada um foi atribuído um padrão preciso de características (globular, crânio alongado etc.) que correspondiam a qualidades intelectuais mais ou menos desenvolvidas.

Assim, uma hierarquia social e cultural foi estabelecida entre os grupos humanos.

CRÉDITO,GETTY IMAGES - Para se afastar da conotação social da palavra raça, a ciência precisou modificar
sua maneira de se referir às populações humanas e aceitar a existência de uma única espécie: o Homo sapiens.

Foi por causa de Blumenbach (1752-1840) que a morfologia do crânio começou a ser usada sistematicamente como parâmetro para determinar a raça de origem de um indivíduo.

Sua metodologia foi estendida a todas as coleções osteológicas europeias no século 18.

Esse interesse pelas características cranianas foi cultivado sobretudo por Franz Joseph Gall (1758-1828), que defendia a hipótese de que a morfologia craniana específica correspondia a certas características intelectuais.

Assim nasceu a frenologia, hoje considerada uma pseudociência.


Os últimos defensores das raças humanas


Muitos antropólogos físicos e geneticistas se dissociaram da imagem que o totalitarismo e o colonialismo queriam dar sobre a variabilidade humana. Para isso, eles forneceram evidências e estudos científicos.

A inconsistência do conceito de raça é perceptível, principalmente porque nunca houve uma classificação unívoca dos parâmetros utilizados.

Ao longo da história, de duas a 63 raças humanas foram classificadas, um pesadelo para os estudantes de antropologia.

Também é importante notar que os primeiros naturalistas e antropólogos que tentaram dividir a humanidade em raças usavam parâmetros sujeitos ao meio ambiente, resultado da evolução e seleção ambiental de características fisionômicas. Por exemplo, cor da pele, tamanho e morfologia do crânio.

Em 1994, a Associação Antropológica Americana se distanciou desse conceito obsoleto e demonstrou sua falta de embasamento científico.

É incorreto definir fenômenos tão dinâmicos quanto a imensa variabilidade humana e a história da evolução do homem com um conceito estático e estéril como o de "raça".

No campo da antropologia forense, um ramo da antropologia física, quando restos são encontrados, é essencial estabelecer sexo, idade, altura e origem geográfica.

Para se afastar da conotação social da palavra "raça", a ciência precisou modificar sua maneira de se referir às populações humanas e aceitar a existência de uma única espécie: o Homo sapiens.

CRÉDITO,GETTY IMAGES - É incorreto definir fenômenos tão dinâmicos quanto a imensa variabilidade humana e a
história da evolução do homem com um conceito estático e estéril como o de raça.

A terminologia mudou de raça para ancestralidade. Isso se refere a características herdadas dos pais e ancestrais de uma pessoa.

Essa mudança também foi necessária porque não é verdade que um indivíduo pertença a uma área específica. A globalização mudou a distribuição de características fenotípicas (aquelas que vemos representadas em uma pessoa).

A pesquisa não foi realizada apenas na parte morfológica do esqueleto humano. Testes genéticos e moleculares no campo da antropologia molecular também foram avaliados.

Em um estudo de 1972 do professor Richard Lewontin, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, foram analisadas proteínas no sangue de diferentes populações.

Os resultados não mostraram diferenças significativas do ponto de vista molecular para separar raças humanas.

Estudos subsequentes ajudaram a verificar que a sequência base (as unidades que compõem a informação genética) no DNA humano é 99,9% idêntica, o que esvaziou completamente o argumento de encontrar um parâmetro confiável para definir raças.

Esses dados foram importantes para apoiar a igualdade dos seres humanos do ponto de vista científico, imparcial e rigoroso.


A ideia de raça nos nossos tempos


Nos tempos modernos, ainda existe a derivada direta do conceito de raça: racismo.

Sabemos as terríveis consequências que isso teve para os genocídios ferozes cometidos no século 20.

Como o físico Albert Einstein dizia, "é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito", uma afirmação ainda atual.

Infelizmente, temos que admitir que ainda existem aqueles que pensam que existem "raças" humanas.

Isso, apesar de a ciência provar que não há evidências suficientes ou bases rigorosas para defini-las no ser humano.


Sob nossa pele, somos todos iguais.

Além disso, o mundo científico trabalha por unanimidade para defender a igualdade entre diferentes grupos humanos e retirar construções pseudocientíficas de uma realidade que é aceita biológica e legalmente.

Sejam os restos mortais de um rei poderoso dos tempos medievais, um escravo egípcio, um migrante que morreu em nossas costas ou uma figura importante no mundo do entretenimento, a verdade universal que os ossos gritam é que somos humanos.


* Lorenza Coppola Bove é professora de Antropologia Física na Universidade Pontificia Comillas, na Espanha.

Este artigo foi publicado originalmente na revista digital The Conversation e é reproduzido aqui sob a licença Creative Commons.


sábado, 20 de junho de 2020

sexta-feira, 12 de junho de 2020

CANSEI

Manifestações insanas, guerras urbanas, derruba estátua, vandaliza estátua, ignorância histórica, ignorância.
Queima carro, queima prédios, mata preto, mata branco, bate na polícia, apanha da polícia, ignorância.
Vírus, pandemia, Trump, homem que é mulher e mulher que é homem, plástico, plástico nos oceanos, ignorância.
Direita, esquerda, centro, extrema direita, extrema esquerda, refugiados, crise, usa máscara, não usa máscara, poluição, cristãos, ignorância.
Islâmicos, chineses, Kim Jong-un, Bolsonaro, toma cloroquina, não toma cloroquina, Maduro, ignorância.
China, resseção, Síria, fake news, confina, desconfina, tiktok, etc., etc., etc... e etc... e ignorância.
Cansei, tô de saco cheio disso tudo.
🤬