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domingo, 6 de junho de 2010

Memórias de um judeu...

Sempre que ouço aquela música do Chico, "Ó pedaço de mim, ó pedaço arrancado de mim", me bate uma deprê braba... Lembro-me da minha infância e acabo voltando no tempo... 
Estava eu deitado no meu bercinho, ainda com uma semana de vida, quando começou a chegar gente em casa. Era dia de festa.
E festa de judeu lembra muito reunião do PSDB : só tem tucano. Cada nareba que não tem mais tamanho.
Mamãe tinha convidado somente 30 pessoas, mas, como era boca livre, veio judeu de tudo quanto foi canto. Se mamãe cobrasse ingresso, corria o risco de nem o papai aparecer. Nem precisa dizer que os presentes não trouxeram presentes.  Metade esqueceu em casa e a outra metade disse que não tinha dado tempo de comprar. Coisas da religião. 
Cada um que chegava vinha até o meu bercinho. Quando se abaixavam para me ver mais de perto, virava um autêntico ataque do exército israelense. Contabilizei pelo menos umas 30 narigadas na minha barriguinha. Em vez de olharem para os próprios umbigos, vinham olhar pro meu. Acho que era por causa da "faixa de gaze".
De repente, se fez o silêncio. Um ser estranho, trajando um terno preto pra lá de surrado, com barba até a cintura, chapéu e cabelo ponhonhóin dos lados, adentrou a sala. Parecia o Capitão Caverna em versão judaica. Ele veio na minha direção. Sacou um bisturi reluzente. Ficamos frente a frente. Ele, o lobo mau, eu, o solidéu vermelho.
Para que esse nariz tão grande? perguntei. Por uns segundos, cheguei a pensar que mamãe tinha resolvido fazer uma plástica no meu nariz, que, com menos de uma semana de vida, já era bem avantajado. Mas, não, o negócio era mais embaixo...  Bem mais embaixo.
Ele tirou a minha fraldinha descartável, que mamãe tinha acabado de lavar, e eu gritei. 

Abri o berreiro: "Tira este tarado ortodoxo daqui! Este comunista judeu quer comer criancinha!!! E no rabino, não vai nada?!!" 
Parti então para a minha última tentativa: ataque com armas químicas. Soltei duas bombas de efeito moral: PUM! PUM! Mas o bigodão do sujeito cobria o nariz como uma máscara anti-gases. Ataquei com mais armas poderosas, mas nem o xixi em jatos conseguiu furar o bloqueio da barba blindada daquele velho. Não teve jeito. Eu, Jacozinho, virei Jacocozinho.
Vai entender o que esse povo tem na cabeça, além dos chapeuzinhos medonhos... Em vez de sacrificarem uma galinha, como na velha e  boa macumba, eles sacrificam o pinto. Cortaram o meu penisberg, meu pausówsky... Ficou só o "ca-ra", porque o "lho" foi-se para sempre. Uma parte de mim tinha virado pinto no lixo, literalmente. 
Enfim, só depois de circuncidado foi que passei a entender o muro das lamentações. Eu, pelo menos, lamento até hoje:  "Ó pedaço de mim..." 
Sammy Lachmann - Publicado no "O Pasquim"

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